Sr.João

Perdi a lotação (alguns conhecem como micro-ônibusIMG_4544.JPG), mas logo em seguida peguei o ônibus que, embora mais lento, faz o mesmo trajeto). Não quis passar a catraca, porque lá trás todos os bancos estavam ocupados, é sexta-feira e eu não queria seguir o caminho de quase 50 minutos em pé.

Me acomodei em um dos bancos da frente, desses reservados. Estava quase dormindo quando lembrei que tinha um livro novo na bolsa e que ainda não tinha lido: toda luz que não podemos ver. Comecei a leitura e já nas primeiras páginas prendi minha atenção. Mas do nada senti alguém me cutucando e pedindo licença para sentar. O banco ao meu lado estava vazio, me afastei e concedi o lugar a um senhorzinho, da pele queimada e enrugada de sol, mãos calejadas e unhas pintadas de terra.

Percebi que ele acompanhava minha leitura e da mesma forma que me cutucou resolveu perguntar: “é uma história de amor?”. Sorri e disse que ainda não sabia ao certo e que tinha começado a leitura há pouco tempo.

– Você gosta de ler, então? – perguntou-me curioso.

– Gosto sim. – emendei com um sorriso.

– Eu queria muito saber ler. Infelizmente não pude aprender nessa vida. – e  como se já me conhecesse há muito tempo descarrilhou a falar -Sabe, moça, às vezes acho que a minha vida poderia ser um livro, de verdade. E eu iria gostar muito de saber ler esse livro.

– Sério?

– Sim! Eu não sou daqui de São Paulo, não. Vim pra cá fugido de uns cabras que queriam me pegar. Quando eu tinha 8 anos meu pai levou meus irmãos e eu para capinar na roça. Sei plantar de tudo, de feijão à fruta, mas não sei ler, não deu tempo de estudar. Com vinte anos eu fui preso, porque assaltei um mercadinho com uns caras que se diziam meus amigos, mas não eram. Fiquei três anos preso, minha família se afastou e cheguei a morar até na rua. Ninguém queria me dar trabalho. Mas um dia, um conhecido arrumou serviço de ajudante de pedreiro pra mim. Foi ai que comecei a me reconstruir.

-De onde o sr. é?

– Nasci em Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia. Só voltei lá duas vezes em toda a minha vida. Uma delas foi quando meu irmão Antônio faleceu. Mas então, minha filha, o sonho da minha vida mesmo era aprender a ler.

-Mas ainda dá tempo! – disse positiva.

-Dá nada, moro sozinho, trabalho de segunda à segunda para poder me sustentar. Já estou muito velho e cansado. Isso já não dá mais para mim. Se a vida tivesse me dado mais oportunidade…minha felicidade é que meus netos…sabe filha, eu tive cinco filhos e dois casamentos…meus netos são pessoas de bem e dois estão fazendo faculdade. Fico muito feliz por isso.

‘Sorri’

-Qual é o nome desse livro mesmo?

Toda luz que não podemos ver.

-Muito bonito! Tem muita luz dentro das pessoas e a gente não pode ver, mas existe. Meu ponto é o próximo, deixa eu me apressar e mostrar a identidade para o motorista.

Apontou-me a rubrica e disse:

-Pelo menos o meu nome eu aprendi a escrever, João de Souza Aparecido.

-Prazer, Sr. João.

-Vai com Deus, filha. Continua lendo!

Acenou e desceu pela porta da frente.

Sorte a minha ter perdido a lotação, acho que consegui enxergar muita luz nessa manhã, através do Sr.João.


 

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

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