Oz é aqui e esse menino pintado de lata já tem um coração

Entrou dois segundos antes de mim no vagão do metrô. Foi ali, na plataforma da Estação da Luz sentido Tucuruvi. Tinha nas costas uma sacolinha preta, que se contrastava com a pele tingida de prata. Era prata dos fios de cabelo até as unhas do pé – este abrigado por um par de havaianas pratas, também –, parecia um menino de lata.

Aproximava-se dos passageiros e lhes entregava um papelzinho que dizia: “Meu nome é Lucas e estou pedindo a sua ajuda de 10 ou 50 centavos para comprar pão e leite para os meus irmãos. Meu pai e minha mãe estão desempregados e estamos passando por necessidades em casa. Obrigada”. Ele entregou um dos recados na minha mão e sorriu. Sorri de volta, era a única coisa que eu tinha ali para oferecer.

O Lucas (se é mesmo este seu nome) aparentava ter uns 10 anos, a julgar pelo tamanho. Percorreu toda a extensão do vagão entregando os papeizinhos, deixando pelo caminho suas pegadas cor de lata. Mas Já eram oito da noite e a maioria das pessoas dentro do expresso aparentava estar cansada (e frias) de mais para dar atenção ao garotinho. Ignoraram o recado.

“Próxima estação, Tiradentes. Desembarque pelo lado esquerdo do trem”, dizia o maquinista. Lucas então retornou de banco em banco para recolher os bilhetinhos e as possíveis moedinhas.  Devolvi o papel, sem nada lhe entregar.

Uma senhora tirou da bolsinha niquileira R$ 2 e colocou sobre as pequenas mãos prateadas. Outra moça, algumas moedas e um pacote já aberto de bolocha Traquinas(se você for carioca leia biscoito, não vamos discordar). Ele agradeceu e encostou-se à porta ao meu lado. Deduzi que desceria na próxima estação, como eu. homem-de-lata-02(10-02-0

“Próxima estação, Armênia. Desembarque pelo lado direito do trem”, disse outra vez o maquinista.  Pelo reflexo do vidro consegui enxergar os olhos do garoto, além da tinta prata, que pareciam tristes e perdidos.  Senti um aperto no coração.

A porta do vagão abriu e, como eu imaginava, o Lucas desembarcou ali também. As moedinhas que ele levava no bolso sacolejavam como chocalhos. Ele seguia na minha frente e passou a catraca da saída antes de mim.

Mas do lado de fora, já na rodoviária, eu pude ver. O menino de lata juntou-se com alguns amigos e a uma garotinha, que se encolhia agachada no chão. Ali, tirou dos bolsos as moedinhas, sentou-se e dividiu sua Traquinas com o restante dos companheiros.

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

Um Comentário

  1. Uma cena comum mas com um final raro, o que dificilmente vemos em pessoas que não passam por isso, a solidariedade em ajudar o próximo.

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