Mais CALOR, por favor!

Ali dentro só o café era quente, porque de resto tudo estava frio. Entrei justamente em busca de calor para me aquecer dos 17°, com sensação térmica de 7° (eu estava com febre, ainda não me recuperei da gripe causada pela garoa de terça), que congelavam a Paulista numa noite de quinta-feira cansativa.

Mais uma madrugada fria na capital paulista, hoje 08-07-11 os termometros chegaram a marcar de 6ºc a  7ºC na Av. Paulista por volta das 5h.

Pedi um café e um salgado, a moça do caixa de imediato me atendeu com frieza e rapidez para em seguida, com a voz sem vida, chamar o próximo da fila. No final de cada atendimento ela perguntava a todos: “Algo mais?”. Tive vontade de responder: “Ânimo minha filha! Pra você e pra mim, por favor.”, mas achei melhor aguardar sem nada dizer.

Sei que a culpa não é dela, é muita gente sem calor que entra e sai o dia todo dali. Querendo ou não isso influência no trabalho que quem lida com pessoas o dia inteiro.

Após pegar a bandeja com o meu pedido, sentei em uma mesa pequenina que tinha visão para a rua. Eu, sozinha, mal cabia naquele espaço cedido pelo estabelecimento. Tenho as pernas grandonas, tive que fazer um contorcionismo para acomodá-las em baixo do móvel. Como é então que duas ou mais pessoas poderiam ali ficar para compartilharem calor humano? Parece até que a estrutura do lugar foi planejada justamente para o cliente pegar sua comida e sair na mesma hora. Tive essa impressão, mas posso estar enganada.

Dei um gole no café, estava perfeito (pelo menos ele). Olhei por um instante pela vidraça e comecei a observar uma família do outro lado da rua – parecia uma família. Eles começaram a estender lençóis e papelões pelo chão para se acomodarem na noite. Em nenhum momento os vi de cara amarrada como a da balconista que me atendeu. Pelo contrário, eles riam, conversavam sem parar – não consegui ouvi-los, mas pareciam dialogar uns com os outros.

Uma moça esbarrou na minha bolsa, que estava pendurada na cadeira. Isso acabou desviando minha atenção de volta para dentro da cafeteria. Nem desculpas ela pediu, também não me deu tempo e espaço para pedi-las.

Mais pessoas chegavam ali, algumas estavam acompanhadas, porém mal interagiam. Acredito que seja porque o desvio de atenção para checar as notificações no celular era muito maior e mais importante. A porta abria e fechava, era gente entrando e saindo, levando e trazendo mais e mais frieza dali e para lá (tanto da rua, quanto do próprio interior).

Tomei meu café, guardei o salgado na bolsa e resolvi sair dali e seguir para casa. A avenida estava gelada e a primeira coisa que eu senti ao abrir a porta foi o frio rasante contar a minha pele fina e congelar meus dedos.  As pessoas que passavam apressadas pela calçada também pareciam frias, algumas também estavam distraídas com seus celulares. Fiquei até com medo de pegar o meu e num instante congelar.

Acreditem ou não, mas ao passar pela calçada que eu havia observado minutos antes, senti um calorzinho diferente. Estava quentinha de verdade, a conversa ali fluía e todos interagiam juntos. Não pareciam se importar com a temperatura. A família se mantinha aquecida por algo chamado união.

Hoje em dia, nos vendem cubos de gelo disfarçados de aparelhos eletrônicos. E nós, meros mortais aceitamos e nos adaptamos as suas irreverências, que sugam nosso calor interior e nem ao menos percebemos. Fui pensando nisso da estação até a rodoviária, onde pego o ônibus para a minha cidade.

Ao voltar pra casa decidi deixar de lado um pouco o smarth fone. Puxei assunto com a senhora que se ofereceu para segurar a minha bolsa. Graças a ela voltei para casa quentinha.

Anúncios

Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: