Liberdade escondida pelo jeans

tumblr_lgonpoUvps1qamk4to1_500Desde sempre fui muito atrapalhada. Sabe, era uma criança que toda hora caia no chão, raspava o joelho na parede áspera, batia a testa na porta, cortava a perna na quina da escada, enfim, vivia sempre machucada.

Tudo bem, criança é assim mesmo, precisa de toda essa adrenalina para crescer. Só que além de ser travessa, eu era (ainda sou) teimosa. Ah, quantas vezes minha mãe falou: “menina não cutuca essa ferida, vai ficar marcado”, “para de arrancar as casquinhas”.

O problema era que eu não escutava a minha mãe e, confesso, adorava puxar a proteção que o meu organismo produzia para tapar a ferida. Eu ficava admirada e vivia me perguntando, como aquilo era possível.

O tempo foi passando (eu ainda continuei caindo), só que eu já não cutucava mais as casquinhas. Aquilo que a minha mãe dizia começou a fazer sentindo. Passei a ter vergonha das minhas pernas, pois estavam todas manchadas.

Uma vez fui para a escola de bermuda. As outras crianças começaram a zombar de mim. Lembro-me de escutar “Ah que pernas finas e perebentas”. Depois disso não usei mais vestidos, bermudas e condenei as saias. Só deixava as pernas respirarem dentro de casa.

Por conta deste aprisionamento poupei meus cambitos das tardes de sol. O resultado são duas pernas brancas, mal tradas e tristonhas.

Os braços também foram alvos fáceis dos tropeços da infância. Porém, com o tempo, percebi que as cicatrizes que eu carregava neles, foram desaparecendo por conta do sol.

Mesmo acompanhando a transformação corada e gradativa, não libertei os membros inferiores do corpo humano. Eu ainda tinha vergonha e continuava a preferir as calças.

Dias atrás eu refleti. Essas marcas são lembranças do que eu vivi, não são motivos para eu me envergonhar. Muitas delas vieram a partir das buscas de aventuras pelo quintal, outras foram resultados de coisas ruins, mas que eu superei e cicatrizaram.

Enquanto eu não as deixar “livres” (as pernas), elas continuarão ali (as marcas). Não que eu queira me esquecer, mas tenho que começar a me alforriar deste trauma.

Sábado passado usei uma bermuda pela “primeira vez” depois de muito tempo, na frente de pessoas que não eram meus familiares. E sabe qual foi à sensação? De ter saído de uma masmorra, onde eu mesma me acorrentava.

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

  1. Tha, parabéns e continue a escrever pois você tem o dom e isso hoje em dia é um tanto quanto raro. Os seus textos são ótimos, e me identifiquei bastante com esse por conta de todas as minhas cicatrizes rs

  2. Marina

    Meu Deus vc esta falando da minha filha , só pode, se fossem irmãs não seriam tão parecidas nas atitudes, tombos, perebas e casquinhas 🙂

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