Tomba, o cão guia

Tomba

Lá estava ele, agachado ao lado do amigo de quatro patas. Eu subia a escada rolante da estação Sé para seguir até o trabalho. Desta vez eu não estava atrasada e pude ficar ali, calmamente apoiada no corrimão.

Sua imagem era construída nitidamente ao ponto em que os degraus se elevavam. Em solo firme, onde os homens placas/cartazes de “eu compro ouro” ficam para venderem o seu peixe, eu pude vê-lo.

Após se apoiar no vira-latas, o homem, que usava um paletó maior que o corpo e calças menores que as pernas, apalpou as orelhas do bichinho, lhe fez um cafuné e ergueu-se para seguir o seu caminho.

O cachorro, de pelos pretos e porte médio, conduzia-o como um capitão coordena seus marujos em alto mar. Curiosa, passei a observá-los melhor, pois os dois caminhavam no mesmo sentido que eu.

Não usava varas e nem bengalas, apenas confiava em seu cão.

A todo o momento ele retribuía o cuidado do amigo, que desviava dos buracos e pedestres. “Isso, bom menino”, “Cuidado com as pessoas”, “isso, siga em frente tomba”, dizia ele para o cão.

Ao chegarmos, nós três juntos, a faixa de pedestres, pude confirmar o que eu já supunha desde que os vi perto da escada, ele não enxergava.

Uma senhora que usava uma camiseta preta da Janis Joplin, já aguardava pela liberação do semáforo. Ao tirar os fones do ouvido, ela começou a puxar assunto com o moço do paletó grande e calças curtas.

— Qual é o nome dele?

— Tomba – disse ele a senhorinha rindo simpaticamente. – Meu melhor amigo e meus olhos emprestados.

— Ele é muito bonito!

— Obrigada, ficamos agradecidos pelo elogio.

— Ele te ajuda no caminho todos os dias? Onde você mora?

— Ele está sempre comigo, me ajuda em tudo. Eu sou morador de rua faz uns sete anos. O Tomba está comigo desde filhotinho, nunca teve treino e adestramento, mas sempre soube o que fazer para me ajudar.

— E onde você o encontrou?

— Eu o ganhei de um amigo meu que também é morador de rua. Já tive 13 cachorros desde que eu cheguei aqui em São Paulo e passei a morar na rua. Alguns fugiram e outros simplesmente sumiram. O antecessor do Tomba morreu atropelado. Por isso eu o ganhei.

— Nossa que triste, me desculpe por ter perguntado e ter te feito lembrar.

— Não tem problema. – e segurando a guia do cachorro, ele o apalpou mais uma vez para um cafuné – A senhora não sabia.

— Mas fico feliz por receber a ajuda deste pequenino ai.

O cachorro empinou o corpinho e o puxou o dono para frente.

— O sinal abriu, obrigada pela conversa – disse o dono do tomba para a fã da Janis Joplin. – Até mais.

— Até mais meu jovem, Deus te abençoe.

— Amém, igualmente.

Ao atravessar pela faixa cada um seguiu para rotas diferentes. O Tomba e seu dono foram para o Pátio do Colégio, a senhorinha pôs seus fones de ouvido caminhou para o Solar da Marquesa, na Rua do Carmo, e eu, continuei o roteiro de todos os dias.

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

  1. Roni

    mtt legal seu post, parabéns!! experiências únicas essas. continue assim. Roni.

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