Eu escrevo

Os cabelos estavam esvoaçados. O pijama rosa que usava era velhinho, mas parecia lhe esquentar do frio. De pantufas veio correndo em minha direção para o tradicional abraço. O encontro dos bracinhos finos e curtos com os longos e, também finos.  Logo em seguida já abriu um sorrisão e perguntou:

— Ei prima, quer brincar de entrevista?

— De entrevista? Parece legal, vamos sim.

— Eu vou ser a moça do programa. Falei primeiro já.

— Sem problemas, pode ser você.

— Muito bem, vamos arrumar o programa – e com um ar de maturidade, arrastou os lápis coloridos para um canto do quarto e puxou os ursinhos de pelúcia para que fossem a plateia.

— Quer ajuda? – perguntei.

— Não precisa, fica sentada já e me espera.

Puxou a mesinha onde ficam as loucinhas de cozinha e, na mini cadeirinha de plástico amarela, sentou o traseirinho para começar o “Grande programa da noite” como ela mesma o titulou.

— Boa noite meu público, como você estão? – perguntou sorrindo para o senhor urso, três bonecas com o rosto rabiscado com caneta Bic azul, duas bonecas de peno e um pinguim de pelúcia – hoje estamos com a nossa querida convidada, Thalita!

Cochichando baixinho perguntou: — Mas o que você é mesmo?

— Jornalista – respondi.

— Com a nossa querida jornalista Thalita! Palmas plateia.

— Oi Isa, é um prazer estar aqui hoje no seu programa.

— Bem, vamos começar nossa entrevista. Como vai seu pai, sua mãe?

— Estão todos bem, obrigada.

— E seus cachorros? Tão bem também?

— Todos ótimos.

— Quem bom. Quantos anos você tem?

— Vinte e um!

— Nossa você está velha hein!

— Você que é nova. Quantos anos têm?

— Seis – levantando os cinco dedos da mão esquerda e um da mão direita me mostrou a sua idade – mas vamos continuar a entrevista.

— Ok.

— Então, me conte querida convidada, o que você faz para salvar o mundo?

— Eu escrevo- desapontada e brava com a minha resposta, Isa perguntou-me outra vez.

— Não isso. O que você faz para salvar o mundo?

— Eu escrevo.

— Não, você tem que falar, “eu economizo água, planto flores”.

— Ok, fala de novo.

— Mas então, o que você faz para salvar o mundo?

— Eu escrevo!

— Chega, acabou este programa, você não sabe brincar direito.

Revoltada ela pegou os brinquedos do chão e os arrumou na cama e pediu que eu me retirasse do quarto.

— Pode ir, eu vou dormir. Só volte aqui quando souber brincar de entrevista.

Rindo, dei um beijo de boa noite na pequena nervosinha e fechei a porta.

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

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