Sobre um concurso que queria ter participado

Há cerca de dois meses fiquei sabendo de um concurso literário que seria promovido pelo CIEE. A proposta era dizer, por meio de uma dissertação, porque você gostava de Guimarães Rosa. Comecei a escrever o texto devagar, a cada dia arrumava um parágrafo, acertava outro e reescrevia outras frases. Minha intenção era levá-lo antes do prazo final, 30 de abril, até a sede onde receberiam os trabalhos.

Por alguns motivos só consegui tempo livre para levar minha dissertação no último dia. Fui até o terminal Bandeira (São Paulo), pois de lá sairia um ônibus sentido terminal Capelinha que me deixaria próxima a Rua Tabapuã, onde fica a central do CIEE.

Entrei no ônibus 6451-10, peguei o meu bilhete único, que não passou. Nessa hora fiquei muito chateada, estava morrendo de fome, sem crédito no cartão e precisava entregar o meu texto. Na bolsa só tinha algumas moedas, que não ajudariam a completar a passagem de ida e volta.Desisti e voltei pra casa. Fiquei triste porque Guimarães é um escritor memorável, o admiro e acredito que eu poderia ter ficado entre os três primeiros, mas aquele não era meu dia de sorte. 


“O autor que dá asas aos seus leitores a cada folheada”
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Por que eu gosto de Guimarães Rosa?

É inevitável não gostar. Guimarães fisgou-me logo na primeira vez em que li um trecho de Grande Sertão: Veredas, na época do ensino médio, em uma apostila de Língua Portuguesa. “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.”

Tratei então de ir atrás da obra completa. Com o livro em mãos, coloquei-me na pele do ex-jagunço Riobaldo, apaixonei-me por Diadorim e quando percebi, já estava pisando na terra seca do Sertão de Guimarães. Esse foi o início da relação de amor e admiração que mantenho, até hoje, pelo autor e sua escrita.

Guimarães é inspirador. Brasileiro, de família humilde, foi atrás de uma educação de qualidade por conta própria. Aprendeu a falar diversas línguas, conheceu teorias, histórias e escritas pelo seu interesse e anseio por coisas novas. Reinventou-se para alcançar seu lugar e ser reconhecido. Defendeu em suas estórias, o patriotismo através de diálogos regionalistas e apresentou o Brasil a diversos leitores de forma única.

A narrativa do escritor – embora feita com elementos do experimentalismo linguístico da primeira fase do modernismo e a temática regionalista da segunda fase do movimento – encanta e ampara a diversos estudantes nos preparativos de vestibulares das mais conceituadas universidades do país. Além de inspiradoras, as palavras do escritor nos convidam a dançar juntos em uma única harmonia, a da literatura brasileira.

Com a sua ajuda, não me interessei somente por contos, crônicas e estórias brasileiras, mas passei a escrevê-las também. Percebo hoje que a herança de Guimarães, deixada aos leitores nacionais, é certamente sua linguagem única e abrasileirada, capaz de aproximar quem lê de outras geografias e de personalidades que, apesar de nos tocarem, só existem no papel.

Suas obras chamam-me a atenção por descrever precisamente as lutas, medos e amores de seus personagens que, nos prendem em seus corpos literários. Cada estória é uma nova sensação, outra descoberta. O efeito que as narrações de Guimarães têm sobre quem as lê é parecido com o que sentimos ao viajarmos para um estado novo, onde nada conhecemos, mas se nos deixarmos levar, podemos enxergar ao redor a beleza da paisagem.

Dependendo do momento em que se encontra o leitor, Guimarães entretém, aconselha, anima, resgata esperanças e atua na fase de transformação das pessoas que assim o permitem. Quantos adolescentes já não leram seus romances e se motivaram? Quantos já perderam entes queridos e foram consolados ao lerem que “pessoas não morrem, ficam encantadas”? Guimarães é assim, um autor para todos os momentos.

Seus clássicos estão disponíveis a quem se interessar. São acessíveis e podem ser encontrados em várias bibliotecas públicas, escolares, sebos e livrarias. Não há desculpa para não se encantar com autor, basta lê-lo. Guimarães não faz distinção de raça, classe social, sexo ou escolaridade, ele eternizou-se através de seus rascunhos, ideias e publicações para que todos pudessem conhecê-lo.

Ao perguntarem por que eu gosto de Guimarães Rosa, oscilo entre dois extremos: gosto porque Guimarães é Guimarães, um orgulho brasileiro que trouxe riqueza e experiência humana através de suas palavras e faz com que voemos em seu diálogo a cada parágrafo; por outro lado, gosto porque as pessoas “ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando” e tenho a certeza de que, as estórias deste autor viverão para sempre amparando e inspirando todos os tipos mutações.

 

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

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