Sobre uma chuva passageira

As nuvens que estavam no céu ontem às quatro da tarde, pareciam pesadas e muito próximas das cabeças apressadas que atravessavam a rua. Já era de se esperar que os cumulus nimbus estivessem carregados com litros e mais litros de chuva por conta do calor que fazia.

Eu, lá do ônibus, torcia para que o motorista acelerasse.  Assim, poderia chegar em casa ilesa, sem um pingo de chuva no cabelo alisado pela “chapinha”. Mas parecia que quanto mais eu pedia, mais mentalizava e,  até o xingava mentalmente,  menos ele dirigia.

Como tenho uma sorte de fazer inveja, foi só descer do ônibus para São Pedro liberar o temporal. Abriguei-me em baixo da cobertura de uma adega que fica na avenida do meu bairro. Em meio aos engradados de refrigerantes e cervejas, tentava me esconder.

O vento se enfurecia e parecia disputar com a chuva para ver qual dos dois era o mais forte. Ele fazia com que as arvores da lajeada dançassem como bailarinas em agonia. Tudo o que eu queria era não molhar os pés – detesto molhar os pés em dias de chuva. Ficar com as meias e o par de tênis encharcados, é, com certeza, uma das sensações mais desagradáveis que existem – e aos poucos fui me ajeitando.

Já estava revoltada e xingava meio mundo por aquela situação, inclusive a mim, por não carregar um guarda-chuva dentro da bolsa como minha mãe sempre aconselha. Foi quando olhei para a outra calçada que estava sem cobertura, e vi uma cadela parda com manchas pretas, tentando proteger seus filhotes mesclados.

Não pude contar ao todo quantos filhotes eram, presumo que talvez fossem uns três ou quatro, mas os números não me importavam naquele momento. Fiquei maravilhada ao ver o cuidado daquela mamãe e esqueci a minha mesquinhez.

Ela abocanhou um dos filhotes e o escondeu atrás de uma caixa de ‘kaiser’ e assim foi fazendo com o restante. Fiquei com medo de tentar ajudar e a assustar, então não me aproximei. A chuva foi acalmando e segui o meu caminho, já sem medo de pisar nas poças d’água e molhar o all-star vermelho naquela tempestade de verão.

 

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Sobre Thalita Monte Santo

Jornalista, fotógrafa e escritora.

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